Caracas amanheceu diferente depois da queda de Nicolás Maduro. A capital, antes ruidosa, mergulhou num silêncio que não passa despercebido. Não é calmaria. É cautela. Entrevistas feitas nos últimos dias revelam um país em suspensão, onde a população tenta entender o que mudou — e, principalmente, o que não mudou.
O governo interino de Delcy Rodríguez ainda constrói sua imagem, mas denúncias de homens encapuzados, armados e sem identificação, fazendo revistas em ruas e estradas, aumentam o clima de insegurança. O decreto de Estado de Comoção Exterior restringiu direitos básicos, como circulação, reuniões e privacidade digital. Celulares passaram a ser motivo de medo.
Uma socióloga, sob anonimato, resume o sentimento coletivo:
“Não há como celebrar porque as fontes de repressão continuam no governo. O medo continua presente. Além disso, houve um ataque. Casas foram atingidas, pessoas morreram”.
A frase ajuda a explicar por que não houve festas nem panelaços, mesmo com a saída de um presidente impopular.
Casos de prisões por comemorações isoladas reforçam o clima de repressão. Em cidades pequenas, até gritos foram suficientes para detenções. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos já manifestou preocupação com o cenário.
O impacto também é emocional. Psicólogos relatam aumento na busca por atendimento, com ansiedade e angústia dominando as conversas. Para quem está fora do país, o sentimento é ambíguo: esperança misturada com dor acumulada de décadas.
Em Caracas, perto do Forte Tiuna, o professor Leonardo Granados descreve a vivência direta do conflito:
“Sentimos indignação, tristeza. Nossa soberania e nosso espaço territorial foram violentados, pessoas foram assassinadas”.
Entre incertezas, vigilância e expectativas, os venezuelanos seguem um dia de cada vez. Como se diz por lá, amanhecerá e veremos.



